Antes de mudar de país eu já considerava ter furado a minha bolha social no Brasil.
Eu tinha contato com realidades de diferentes classes sociais por causa da minha profissão, e eu precisava entender os contextos dessas classes sociais para que pudesse realizar o meu trabalho com assertividade. Eu trabalhava com famílias em situação de vulnerabilidade, risco e negligência, e também com pessoas com poder aquisitivo elevado.
Entretanto, na minha vida pessoal eu convivia com pessoas de diferentes grupos, mas com os mesmos perfis.
Eu, que até então acreditava que convivia com todo tipo de gente, cheguei na Bélgica e aí sim entendi o que é conviver com pessoas tão diferentes. Pessoas de nacionalidades diferentes, culturas diferentes, costumes, hábitos, conceitos diferentes, tudo tão diferente.
No meu primeiro ano aqui eu estudei neerlandês em uma escola que o governo oferece aulas para imigrantes. Desses imigrantes, cada pessoa tem um motivo para estar lá. Alguns estão lá por vontade própria, outros precisam por causa da renovação de documento, outros são os refugiados que são acolhidos pelo governo e precisam se desenvolver, entre tantos outros possíveis motivos.
Quando olhamos para realidades tão diferentes, ampliamos a nossa forma de ver o mundo, de pensar, de agir, pensamos no cuidado para não constranger alguém por algo que é tão natural para nós. Vemos o mundo de cada pessoa da forma que deve ser visto, com o olhar dela. Isso é algo muito especial, é tão bonito sentir no dia a dia que o mundo é tão além. É uma experiência que nos torna mais humildes, pois temos a certeza de que somos apenas mais um ser humano no meio de tantos. Nossas vontades não serão realizadas. Nossas frustrações nos acompanharão diante das dificuldades que surgirão. Precisaremos respeitar que o país para onde nos mudamos é diferente, nem melhor e nem pior, mas que tem sua própria cultura.
Mudar de país me fez sair completamente da minha bolha social e me envolver com realidades que eu nunca imaginei que teria contato. Eu não sou mais a mesma. Muita coisa mudou em mim e eu gosto de olhar para o meu crescimento como ser humano e para tudo que aprendi. Eu amo viver em um lugar onde tudo é tão diverso, onde observo todo tipo de costume e aplico o que me agrada na minha vida. Nada disso seria possível se eu não tivesse saído do país que nasci, pois apesar de ser questionadora e interessada em buscar o que realmente faz sentido para mim, é diferente de você se deparar com a realidade de que é possível mudar coisas que até então eram tidas como um padrão, é considerar que a cultura que você aprendeu é discutível.
Uma das sensações que carrego e que eu acredito que habita muitos dos imigrantes é a sensação de não pertencimento.
Na minha vida, a sensação de não pertencimento já existe desde a infância, ou seja, desde o Brasil. Hoje, morar em um lugar onde eu acredito que muitos também carregam a sensação de não pertencimento até faz com que eu me sinta pertencente a algo. Porém, eu continuo convivendo com a sensação de não pertencimento aqui na Bélgica.
Na primeira vez que visitei o Brasil novamente pude perceber a sensação de que ali, definitivamente, já não era mais o meu lugar. Eu não consegui me encaixar ali, me senti completamente perdida, estranha, distante, solitária, me senti uma estrangeira no meu país de origem, uma estranha no ninho, até mais do que como eu me sinto aqui na Bélgica. Algo foi rompido. Eu voltei completamente diferente de como saí de lá, uma mudança que às vezes é até difícil de compreender. Hoje eu vejo o Brasil como um lugar estrangeiro.
Morar fora é desafiador, exaustivo e doloroso. Vivemos muitos lutos: perda de identidade, cultura, linguagem, familiares, colegas, emprego, status… Mas é inegável o quanto é enriquecedor.
Acredito que a sensação de não pertencimento continuará existindo, por mais disposição, empenho e persistência que exista. Hoje eu sou uma mistura do que vivi, sou o que for preciso, sei que posso me moldar e me adaptar se for o que eu quiser. Sair da bolha social e se envolver com realidades tão diferentes é algo que, definitivamente, vale a pena.
